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Gestão de frotas

Para que serve a videotelemetria nas frotas de veículos?

Jade Zart Jade Zart 8 min de leitura
Para que serve a videotelemetria nas frotas de veículos?

A videotelemetria é uma tecnologia embarcada que une câmeras instaladas no veículo aos dados de telemetria da viagem, com o objetivo de aprimorar a segurança, a eficiência e a análise de dados das operações de transporte.

Ela integra a tradicional telemetria ao monitoramento por vídeo na frota. Assim, oferece uma visão mais completa das operações de transporte, permitindo aos gestores uma compreensão aprofundada das atividades diárias na estrada.

Isso pode ser bastante útil para melhorar a tomada de decisão e otimizar as práticas de gestão da frota e dos motoristas.

Uma ressalva antes de seguir: videotelemetria é solução de terceiros. Ela depende de equipamento instalado no veículo — câmera e módulo de telemetria —, vem de empresas especializadas nesse tipo de tecnologia e é contratada à parte dos sistemas que a frota usa para gerir pneus, checklists ou manutenção.

Entenda ainda melhor a seguir:

O que é videotelemetria?

A videotelemetria é uma tecnologia integrada que combina a captura de vídeo em tempo real com a análise avançada de dados de telemetria dos veículos — que podem abranger desde a velocidade média da viagem até a quantidade e tempo de cada parada realizada.

Com a câmera veicular instalada nos veículos da frota, a videotelemetria registra continuamente as atividades do veículo, capturando detalhes que vão desde padrões de direção até ocorrências na estrada.

A configuração varia conforme o fornecedor e o pacote contratado: a câmera pode estar voltada para a via, para a cabine ou para as duas frentes — escolha que muda o que o sistema enxerga e o peso das questões de privacidade.

Videotelemetria, telemetria e sistema de gestão: o que é cada camada

Vale separar três camadas. A telemetria coleta dados do próprio veículo por meio de equipamento embarcado. A videotelemetria acrescenta imagem a essa coleta. E o sistema de gestão de frota é o software em que a operação organiza inspeções de pneus, checklists e ordens de serviço — cujos dados nascem de pessoas: quem inspeciona, quem preenche o checklist, quem aponta o serviço na oficina.

Equipamento embarcado, aliás, não é novidade na legislação. O Código de Trânsito Brasileiro exige, no art. 105, II, "equipamento registrador instantâneo inalterável de velocidade e tempo" para os veículos de transporte e de condução escolar, os de transporte de passageiros com mais de dez lugares e os de carga com peso bruto total superior a quatro mil, quinhentos e trinta e seis quilogramas.

A videotelemetria não está entre os equipamentos obrigatórios listados nesse artigo: entra na frota por decisão de contratação, não por exigência do CTB. O caput ressalva que a lista comporta outros equipamentos "a serem estabelecidos pelo CONTRAN", e regras setoriais podem trazer exigências próprias.

Para que serve a videotelemetria?

Dentre suas funções, ela serve para melhorar a segurança na estrada, permitindo a análise de comportamentos de condução e identificação de práticas perigosas, como a distração ao volante ou a condução agressiva.

Além disso, facilita a investigação de incidentes, fornecendo evidências visuais em caso de acidentes.

Na etapa operacional, são os dados de telemetria — e não o vídeo — que sustentam a otimização de rotas e o acompanhamento da eficiência do combustível, o que pode contribuir para reduzir custos operacionais. O ganho, porém, depende de alguém usar o dado para mudar rota, hábito de condução ou escala.

Também é uma ferramenta que contribui com o treinamento de motoristas, oferecendo feedback baseado em situações efetivamente registradas, e não em impressões.

Importância da videotelemetria na frota

Com a capacidade de fornecer visibilidade em tempo real e gravações de vídeo das condições de direção, essa tecnologia pode reforçar a responsabilização e influenciar o comportamento dos motoristas.

Ela também é apontada como apoio na prevenção de acidentes, ajudando a identificar e corrigir comportamentos de risco antes que resultem em incidentes sérios. É na configuração com câmera voltada para a cabine que entra a detecção de sinais de sonolência e distração, com alerta ao motorista: um apoio no combate ao sono ao volante, não uma garantia contra ele.

Além disso, a análise dos dados de telemetria e vídeo oferece informações para a otimização das operações, desde a melhoria das rotas até o planejamento da manutenção preventiva dos veículos. Vale lembrar que a manutenção preventiva não se apoia só nesses dados: inspeções feitas por pessoas e apontamentos de oficina seguem sendo fonte do que decide troca e reparo.

Desafios na implementação de videotelemetria em frotas

Conformidade com a privacidade e legislação

A implementação da videotelemetria em frotas enfrenta o desafio de assegurar a privacidade dos motoristas e a conformidade com as leis de proteção de dados.

O ponto de partida é reconhecer o que está sendo tratado. A Lei nº 13.709/2018 (LGPD) define dado pessoal como "informação relacionada a pessoa natural identificada ou identificável" (art. 5º, I) — definição a considerar antes de gravar a imagem de um motorista identificável.

A lei condiciona o tratamento a uma das hipóteses do art. 7º, entre elas o consentimento do titular (inciso I) e o tratamento "necessário para atender aos interesses legítimos do controlador ou de terceiro, exceto no caso de prevalecerem direitos e liberdades fundamentais do titular que exijam a proteção dos dados pessoais" (inciso IX). Quando o fundamento é o legítimo interesse, o art. 10 acrescenta que "somente os dados pessoais estritamente necessários para a finalidade pretendida poderão ser tratados" (§ 1º) e que o controlador "deverá adotar medidas para garantir a transparência do tratamento" (§ 2º).

O art. 6º lista os princípios do tratamento — entre eles finalidade, necessidade, transparência e segurança — e o art. 9º assegura ao titular "o acesso facilitado às informações sobre o tratamento de seus dados".

Estabelecer políticas de privacidade é essencial, assim como garantir que todos os procedimentos estejam em regularidade com as leis vigentes. Na prática, isso significa definir por escrito a finalidade da gravação, o prazo de guarda das imagens e quem pode acessá-las. Este texto descreve o que a lei estabelece; a hipótese legal aplicável a cada operação cabe ao jurídico e ao encarregado pelo tratamento de dados da empresa.

Integração com sistemas de gestão existentes

Outro desafio é a integração com os sistemas de gestão de frota já utilizados. Isso requer uma abordagem para garantir compatibilidade e evitar interrupções operacionais, o que pode até exigir atualizações de software ou hardware.

Como os dados de videotelemetria nascem no sistema do fornecedor do equipamento, integrar significa combinar bases que vivem em lugares diferentes. Antes de assinar, vale acertar em contrato se há API ou exportação disponível, em que formato os dados saem e o que acontece com o histórico gravado ao fim dele.

Resistência e treinamento da equipe

A aceitação da equipe e o treinamento adequado podem representar um desafio em alguns casos. A resistência à mudança, por exemplo, é uma situação comum.

Com câmera voltada para a cabine, a resistência tende a ser maior, porque a percepção deixa de ser "estão acompanhando o veículo" e passa a ser "estão me observando". Portanto, você precisa proporcionar treinamentos abrangentes e abordar as preocupações dos funcionários, dizendo com clareza para que serve o registro e quem terá acesso — o que conversa com o princípio da transparência do art. 6º da LGPD.

Custos de implementação e manutenção

Os custos associados à implementação e manutenção da videotelemetria podem ser um desafio especialmente para frotas menores ou com orçamentos limitados.

Pois, o custo inicial de aquisição do equipamento, bem como despesas contínuas com manutenção e atualizações tecnológicas podem ser elevados. Ao pedir proposta, vale detalhar o que está incluído — instalação, conectividade, mensalidade do sistema do fornecedor, reposição de equipamento danificado — e projetar o custo para a frota inteira, não só para o piloto.

Análise e gestão de dados

Essa etapa requer recursos dedicados para revisar e interpretar as gravações de vídeo, além de integrar esses dados com outras métricas operacionais para uma análise abrangente.

Por isso, pode ser um desafio tanto de capacitação da equipe quanto de contratação de novas pessoas ou até ferramentas de IA que automatizam esse tipo de atividade. Mesmo com triagem automática, alguém precisa decidir quem assiste ao evento sinalizado e o que se faz com ele; sem essa rotina, o resultado é acúmulo de gravação sem decisão.

Possibilidades na análise de dados de videotelemetria

Monitoramento e avaliação do comportamento do motorista

A análise de dados de videotelemetria permite um monitoramento detalhado do comportamento dos motoristas.

Isso inclui a observação de hábitos como a velocidade, uso do cinto de segurança, atenção à estrada e respostas a situações de risco.

Essas informações ajudam a identificar áreas de treinamento e desenvolvimento, contribuindo para a segurança na estrada. Um cuidado, porém: evento isolado diz pouco. Uma frenagem brusca pode ser erro de condução ou reação correta a uma fechada — é o contexto que separa as duas leituras.

Análise de incidentes e prevenção de acidentes

Os dados de videotelemetria podem ser usados para analisar incidentes específicos, como frenagens bruscas, acelerações e manobras perigosas.

Ao avaliar as circunstâncias em torno desses eventos, você pode identificar padrões de risco e implementar medidas preventivas para reduzir a ocorrência de acidentes. Se as ocorrências se concentram num trecho ou num turno, o problema pode não estar no motorista, e sim na rota ou na escala.

Otimização de rotas e eficiência de combustível

A videotelemetria oferece insights sobre a eficiência das rotas realizadas e o consumo de combustível.

Analisando os dados de vídeo juntamente com as informações de telemetria, como tempo de viagem e paradas, é possível otimizar as rotas para economizar combustível e tempo, melhorando a eficiência operacional. Nessa frente, o trabalho é sobretudo da camada de telemetria; o vídeo entra para explicar por que um trecho consome mais — obra, congestionamento, condição da via.

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