A escassez de motoristas no transporte rodoviário de cargas deixou de ser um problema pontual e se consolidou como uma limitação estrutural do setor. Uma pesquisa da NTC&Logística, realizada em 2025 e divulgada no início de 2026, aponta que 88% das empresas do TRC relatam dificuldade na contratação de motoristas e agregados.
Entre as transportadoras que afirmaram ter veículos parados por falta de condutores, a média é de 8 caminhões ociosos por empresa. O dado coloca a escassez de motoristas como a segunda maior limitação ao crescimento do setor, apontada por 28,1% dos entrevistados — atrás apenas da piora do cenário econômico interno (40,7%) e à frente das dificuldades de acesso ao capital (17%).
O cenário não é novo, mas se agravou. O envelhecimento da categoria, a concorrência com outros setores que disputam o mesmo perfil de profissional e as condições da profissão (jornadas longas, tempo fora de casa, desgaste físico) tornam cada vez mais difícil atrair novos motoristas.
Soma-se a isso o impacto das decisões judiciais relacionadas à ADI 5322, que alteraram regras sobre tempos de espera e descanso. Na prática, essas mudanças reduziram a disponibilidade operacional de cada motorista, o que significa que a frota precisa de mais profissionais para manter o mesmo nível de entregas.
O custo da frota parada
O efeito na operação é direto: caminhão parado por falta de motorista é frete que não acontece, cliente que não é atendido e receita que não entra. Para uma transportadora com 8 caminhões ociosos, o prejuízo da ociosidade se acumula diariamente em custos mensais do caminhão (financiamento, seguro, depreciação) sem nenhuma receita para compensá-los.
É um problema que pressiona a rentabilidade sem que a empresa tenha feito nada de errado na gestão, simplesmente não há quem dirija.
Esse cenário já se reflete na disposição de investir. Segundo a pesquisa, 61,2% das empresas não adquiriram veículos nos últimos 12 meses e, para 2026, 61,5% não pretendem renovar a frota.
Margem apertada para competir por profissionais
Em paralelo, outros fatores pressionaram a rentabilidade em 2025 e reduziram a margem de manobra das transportadoras para competir por profissionais: novos custos com seguros (Lei 14.599/23), o fim da leniência na fiscalização do piso mínimo de frete e uma alta acumulada de 13,42% no custo com mão de obra nos últimos 24 meses.
Com o frete efetivamente recebido defasado em média 10,1% em relação aos custos calculados, sobra pouco espaço para melhorar remuneração e condições, justamente o que seria necessário para reter e atrair motoristas.
A contrapartida mais expressiva aparece no treinamento: 92,6% das empresas planejam investir em capacitação como estratégia para enfrentar a escassez. Se trazer gente nova está difícil, qualificar e reter quem já está na operação vira prioridade.
Perspectiva para 2026
Para 2026, a expectativa do setor é cautelosa: 57% das empresas projetam estabilidade, 29,6% estimam piora e apenas 13,3% esperam melhora. Com a segunda fase da reoneração da folha de pagamento e a Selic em patamares elevados, o custo de manter e contratar motoristas segue subindo. enquanto a oferta de profissionais não dá sinais de recuperação.
Nesse momento, esperar o mercado normalizar é aceitar operar com frota ociosa por tempo indeterminado. As empresas que estão se movimentando e investindo em um controle de motoristas que considera a capacitação, melhoria de condições e tratando retenção como prioridade estratégica são as que têm mais chance de manter a operação rodando enquanto o setor como um todo ainda busca resposta para esse problema.
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