Última atualização: maio de 2026.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 avançou no Congresso Nacional e se tornou um dos temas mais relevantes para quem gerencia uma frota de transporte rodoviário de cargas em 2026.
A proposta de redução da jornada semanal está em tramitação ativa e, caso aprovada, terá impacto direto na estrutura de custos, na organização de escalas e na disponibilidade de motoristas.
O que está em tramitação
Atualmente, três propostas tramitam simultaneamente na Câmara dos Deputados:
A PEC 8/25, da deputada Erika Hilton, propõe o modelo 4×3 (quatro dias de trabalho e três de descanso) com jornada limitada a 36 horas semanais.
A PEC 221/19, do deputado Reginaldo Lopes, também prevê 36 horas semanais, mas com implantação gradual ao longo de dez anos.
Ambas foram aprovadas pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em abril de 2026 e seguem agora para uma comissão especial criada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta, composta por 38 titulares e 38 suplentes. Se aprovadas na comissão, seguem pro Plenário.
Paralelamente, o Governo Federal enviou o PL 1.838/2026, que propõe um caminho intermediário: jornada de 40 horas semanais com dois dias de repouso semanal remunerado, proibindo a redução de salários. O projeto tramita em regime de urgência e passa a trancar a pauta de votações a partir de 30 de maio de 2026.
Motta afirmou que o tema é “a matéria mais importante da Câmara em 2026”.
O que muda para o transporte rodoviário de cargas
O transporte rodoviário de cargas é uma atividade essencial que opera de forma contínua ao longo de 24 horas por dia, sete dias por semana. Essa característica torna o setor particularmente sensível a mudanças na jornada de trabalho, que já precisa estar de acordo com a Lei do Motorista.
Os principais pontos de impacto giram em torno de custos operacionais, escassez de motoristas e logística e rotas de longa distância.
Custos operacionais
Segundo estudo coordenado pelo sociólogo José Pastore (USP) e pelo economista Paulo Rabello de Castro, a redução da jornada sem redução proporcional de salários provocaria um aumento de 10% no valor da hora trabalhada.
No setor de transporte, onde 92,5% dos profissionais já atuam dentro do limite atual de jornada, o impacto nos custos com pessoal seria de 8,6%.
Escassez de motoristas
A Confederação Nacional do Transporte (CNT) estima que o impacto financeiro no setor pode chegar a R$11,88 bilhões, com necessidade de aproximadamente 240 mil novas contratações para manter o mesmo nível de operação.
Porém, o setor já convive com um problema crônico de falta de motoristas profissionais.
Segundo levantamento da CNT, 65% das empresas de transporte relatam dificuldade para contratar motoristas. No transporte rodoviário de cargas especificamente, 44,6% das empresas têm vagas abertas, e mais da metade delas tem mais de cinco posições não preenchidas.
Com as jornadas menores, as transportadoras precisarão de mais motoristas para cobrir a mesma demanda de horas, agravando o problema existente.
Logística de longas distâncias
Por fim, o transporte rodoviário, principalmente no Brasil, exige viagens longas e pernoites. A adequação a um limite semanal menor exigirá controle mais rígido das jornadas de trabalho dos motoristas.
Além disso, pode levar as empresas a implantar sistemas de revezamento no meio do caminho, ampliar o uso de pontos de apoio e centros de distribuição para troca de motoristas e rever prazos de entrega (SLAs) junto aos clientes.
A discussão ainda está em andamento e o formato final da mudança (se houver) pode ser diferente do que está sendo proposto hoje. Mas o cenário indica que alguma alteração na jornada deve ocorrer. Acompanhar a tramitação e antecipar os impactos na operação é o que separa o gestor que se prepara do que reage depois.
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